Treinando a vida. Treinando para a vida.

autonomia
substantivo feminino
  1. 1.
    capacidade de governar-se pelos próprios meios.
  2. 2.
    fil segundo Kant 1724-1804, capacidade da vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno com uma influência subjugante, tal como uma paixão ou uma inclinação afetiva incoercível


Essa palavra aí tá perturbando meus pensamentos a alguns dias. Se eu parar pra pensar e puxar, poderia dizer que há alguns meses, e se for honesta mesmo, há alguns anos.

Quantos tantos pacientes, meus ou das pessoas que supervisiono possuem alguma queixa relacionada a autonomia.

Quanto vejo adultos, em pleno vapor de suas respectivas vidas sem autonomia.

Quanto percebo que confundimos a definição desta, com independência, objetividade, frieza, egoísmo e por aí vai.

Quanto se compara autonomia desenvolvida entre culturas diferentes, entre cargos, situações, irmãos e até que enfim filhos.

E aí chegamos. Vou falar de autonomia a partir daqui.

Meu filho começou a voltar a pé da escola terça feira. Isso chama treino de autonomia.

Não foi indolor, não foi sem pensar, não foi sem planejar, sem adiar, nem tampouco sem me certificar que ele estava compartilhando local comigo no Amigos (é treino lembra, para todos nós).

Fato é, que desde que chegamos nos Estados Unidos ele vinha me pedindo isso. 

Sim, a sociedade americana produz filhos mais autônomos e independentes, e uma vez inseridos culturalmente em determinado modelo começamos a questionar. Os nossos e os dos outros em questão.

Para quem olha de fora (principalmente se for uma mãe brasileira), a postura americana pode ser considerada negligente, e em alguns aspectos, como psicóloga infantil, posso mesmo afirmar que caminha na beirada mas nem mais nem menos que a brasileira se comparada a outros fatores, como invasão de espaço por exemplo, itens quase inversamente proporcionais. 

Entendo por negligência toda vez que não conseguimos ver o outro em sua forma inteira, e assim negamos ou não vemos certas partes, e por nossa escassa compreensão sobre, não agimos, nos distanciamos ou agimos sem considerar de fato as necessidades e interesses desse outro.

Existem pais negligentes que não vendo seus filhos negligenciam comida, água, segurança, afeto. 

Normalmente nessas situações mais drásticas eles estão em situações patológicas, físicas ou mentais, e não tem condições de sair de si mesmos para estar com outros. Em outras situações, são vulneráveis social e economicamente falando.

Existe também mau caráter. E existe tudo o que desenvolveu esse "mau" caráter.

Mas o meu foco são as negligencias mais sofisticadas, que acontecem todos os dias, numa grande maioria de lares e que ferem tanto quanto as privações concretas, e a longo prazo, podem matar.

As negligências sobre ter intimidade com filho, oferecer tempo, dialogo, atenção prioritária.

As negligências sobre educar, fazer experimentar frustração, experimentar dificuldade e treinar autonomia.

Tudo isso é treino. A vida é treino.

Educar dá trabalho. Gasta tempo. Faz com que tenhamos que pensar. Rever conceitos, rever posições.

Questionar nossas bases, olhar pra elas, vermos que as vezes não tivemos também, mas que agora somos os adultos da vez, e que a batata quente tá no nosso colo. 

Como tudo na vida é treino não adianta chegar na adolescência e querer conversar com os filhos se não treinamos isso. 

Não adianta queremos receber confidências, se não conquistamos intimidade.

Não adianta cobrar responsabilidade, se eles nunca carregaram nem a própria mochila.

Não adianta cobrar eficiência nas coisas grandes, se nas pequenas ele não exerceu. Se na correria você amarra o cadarço dele todo dia. Sinto muito mas ele só vai saber fazer isso depois de ter tempo e tentativas para.

E aqui uma notícia triste. Ensinei muitas crianças a amarrar o cadarço no meu consultório.

Crianças de 5, 6, 9 e 11. 

Eu não acho isso normal. Não pode ser.

É comum, pelo tipo de vida que a maioria leva, mas não é e espero que não seja normal nunca.

Não adianta cobrar independência, se baseados na nossa necessidade (de utilidade ou controle) estimulamos a dependência deles para garantirmos nossa sensação de segurança, controle ou mesmo poder.

E não adianta cobrar autonomia se eles nunca decidiram nada por si só.

É difícil pensar sobre isso. 

Essa geração toda pode de fato precisar de terapia, especialmente porque a anterior também precisava mas achava que era frescura (essa frase não é minha, e não encontrei a fonte para cita-la aqui mas mantive porque realmente é muito pertinente).

Então para uma criança, os pais estarem na terapia, pode ser melhor do que eles próprios estarem. Quanto menor uma criança é, mais o problema dela é dos pais e ambiente e menos é dela mesma.

E acredite, essa negligências listadas acima matam. Matam.

Uma recente pesquisa americana constatou que o maior índice crescente de suicídio é em crianças/adolescentes de 11 a 14 anos. Isso mesmo 11 a 14 anos.

Os números no Brasil também estão crescendo na mesma faixa etária.

Inacreditável pensar que nossas crianças estão se matando. 

Mas ainda mais inacreditável é descobrir o porquê;

Porquê terminaram o primeiro relacionamento (que pode ter acontecido só na cabeça), porquê sofreram bulling, porque foram excluídos da turma, porque repetiram de ano, porquê vazou um nude, porque foram expostos, envergonhados, enfim... e claro, existem os que sofreram abusos, situações de traumas severos e etc, mas existem outras possibilidades e quando olhamos, nos assustamos com quão banais podem ser esse situações dentro de um contexto maior.

A questão não é se o motivo é bom o suficiente ou não para justificar um suicídio. Afinal, existe motivo que justifica um suicídio? A questão é a banalização da vida numa reação inversamente proporcional a construção de tolerância a situações e sentimentos difíceis.

Do auge do entendimento deles são situações fim da linha, são frustrações ou situações irreparáveis. Sem conserto.

Mas o ponto é, grande parte se mata porque não foram treinados para frustração. Porque tiveram suas educações negligenciadas.

Porque não foram olhados. 

Olhados.

De frente, de trás, do lado.

Gosto do conceito de responsabilidade filial que diz que eles são nossas missões. Pagaremos caro cada negligência, de tempo, de atenção e de diálogo. 

Mas eles pagarão ainda mais caro, e talvez com a própria vida.

Vamos treinar nossos filhos.

Vamos frustrar e deixar que queiram dormir sem jantar, que batam o a porta, que digam que somos a pior mãe do mundo.

Que todo mundo vai, que todo mundo pode, que somos monstros.

Vamos deixar que eles voltem sozinhos em pequenas distância com segurança, que tenham que decidir a roupa, sapato, comida. Que amarrem o tênis. 

Que escolham o que fazer com tempo livre. 

Antes disso, que tenham tempo livre.

Deixe seu filho saber que ele é sua prioridade e trate-o como tal. Assim, você terá presença suficiente para não precisar barganhar com a educação dele. 

Terá segurança para os nãos e aguentará frustrar as expectativas dele, e acredite, isso também te frustrará, mas é para o bem de todos, e felicidade geral das nações.

Vamos prestar atenção nas histórias sem graça do jardim da infância, da fulana que puxou o cabelo da ciclana que chorou. Ou do fulano que falou que come pipoca o dia todo e que o pai faz suco banana todo dia, e que eles são donos do mundo todo, e tem todos os carros que queríamos ter. 

Vamos saber quem é o amigo mentiroso do nosso filho, vamos contar pra ele que essas estórias talvez não sejam verdade. Ou mesmo se não é ele o que mente, (não, eles não são perfeitos e nem nós somos).

Vamos ensina-lo a tolerar, saber disso e não desmascarar o amigo.

Vamos contar que com a mamãe e papai também era assim.

Vamos saber a cor favorita, a comida, o desenho, o amigo e tudo isso não só pra pensar no tema e festa de aniversário.

Vamos ser íntimos dos nossos filhos, a ponto de percebermos quando eles chegam se algo deu errado e assim podermos investigar e ajudar.

Com essa intimidade, podemos treinar a tal autonomia e arriscar.

Sim, a vida é risco.

Deixa-los que assumam os seus pequenos riscos, só é possível quando também encaramos e assumimos os nossos.

Tive medo de deixar o meu vir sozinho, e vou chorar e descabelar se der alguma coisa errada.

Mas tive muito orgulho quando chegou tudo bem, com amigo novo.

Quando no segundo dia decidiu sozinho que não ia esperar o amigo porque atrasaria muito. Eu perguntei se estava pensando na mamãe preocupada, ou se não quis mesmo esperar. Ele disse que os dois, estava sol, e ele também estava com sede.

Bingo!

Independente das variáveis envolvidas, preocupação da mamãe e vontade dele, ele exercitou analise e decisão. Ele se olhou e percebeu que não queria esperar.

Crianças que são vistas aprendem a se olhar.

Parece bobo, mas não podemos cobrar uma boa decisão de um gestor de negócios, que envolve a cabeça de inúmeros pais de família, se ele nunca decidiu sozinho qual era a melhor escolha, o melhor caminho.

Exercitem. Eles vão sobreviver, e melhores.

Antes de caminhar para o final desse texto, uma consideração importante, existem n motivos para suicídios na adolescência que além dos mencionados. E não costuma ser só um motivo, um coquetel desses fatores citados e muitos outros. Não é simples.

Esse texto não é uma caça as bruxas, tão pouco quer responsabilizar pais que nesse momento podem estar passando pela maior dor das suas vidas que é a perda de um filho. A esses pais meu amor e compaixão.

O objetivo desse texto é proporcionar pensarmos sobre tudo isso, sobre prevenir, cuidar, amar e viver.

Não controlamos tudo, a terra, o ar, o céu e o mar. 

Tragédias acontecem e acontecerão, mas vamos fazer nossa parte.

Um outro detalhe importante... eu não fui sempre assim, nem sempre pensei sobre esses treinos. 

Eu treinei também como mãe, e fui pensar nisso mais tarde com a minha mais velha, mas felizmente, a intimidade estava construída e o dialogo presente. Feito isso, o resto se conquista. 

E essa parte foi conquistada mais por intuição do que por conhecimento, eu era inexperiente.

Foi no meu segundo que pude mais madura e já com especificas especializações pensar sobre isso.

Então mães e pais, cuidadores em geral. Não sigam o modelo social o tempo todo, a sociedade está doente.

Sigam suas respectivas intuições, mas antes, silenciem e respirem para escuta-la.

É preciso tempo para tal, deem esse tempo a vocês e aos seus filhos.

Não comece amanhã, comece hoje. Onde e do jeito que você está.

E da minha parte, hoje, sou só orgulho.

Estamos treinando juntos;

No primeiro dia fiquei lá fora aguando as plantas, enrolando pra ver ele chegando.

No segundo aqui dentro, mas conferindo o trajeto no Amigos.

Hoje o tempo passou de tal forma que só agora vi a hora, e veja só...

Ele chegou!

Sei que como todo treino, haverão dias ruins, eu mais preocupada ou dias de chuva.

Eu posso derrapar e ele também.

Mas estamos treinando, a volta da escola.

A conversa depois. (ele me contar sobre o que viu e viveu).

A troca.

A educação.

A vida.




Nessa foto ainda estávamos no outono e treino assistido, e enfim, chegou nossa primavera (literalmente no caso).




Respirei fundo, e me emocionei.

Gratidão pela maternidade, pelo entendimento e pela possibilidade de compartilhar tudo isso.

Até breve,

PS. Esse texto foi escrito em maio de 2018, e hoje revendo atualizei algumas coisas sabendo que após isso ele seria novamente reenviado aos que seguem o blog, o que não é um problema, já que é um treino pensar e praticar isso cotidianamente.


Comentários

  1. Um texto duro, contundente, educativo, generoso... e doce. Falar direta e abertamente sobre autonomia é para poucos corajosos e fico muito feliz por você nos presentear com este texto nessa semana de dia das mães. Gratidão. <3

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  2. Amei o texto. De uma coerência e de um raciocínio existencial. Uma mãe integrada onde pode ver a individualidade e desenvolvimento do aprender no momento exato. Fluidez... Muito bom...
    Que a humanidade aprenda e tenha acesso a esse texto. Para parar, pensar, digerir, compreender e transformar seus paradigmas! Precisamos olhar para esses nossos adolescentes. Seus, meus e de todos!
    Gratidão Marielen.

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