Sobre (tentar) ser como o Rio.

Muito tempo sem escrever, diz o título do último texto que foi desde cinco de janeiro. Alguém está me trapaceando e enganando em relação ao tempo, talvez seja ele mesmo.

Não acho que não está rendendo, pelo contrário. Tenho conseguido cumprir (quase) tudo que me proponho mas ainda assim, parece que bate dez da noite muito rápido, misericórdia.

Viver uma vida cruzada com o Brasil atrapalha ainda mais, é seis da tarde aqui mas já é 10 da noite lá, e se eu bobeio fico mais um dia sem falar com minhas irmãs.

É um porre, literalmente viu, se bobear dá até ressaca.

Fora isso, tem a minha eterna confusão se quem marcou comigo foi no horário daqui ou de lá, deveria ter uma regra e ser óbvio, e eu juro que tentei e tento, mas de verdade, cada um é um, e nessa vou levando de uma maneira mais light e quando vejo estou confusa de novo.

Ontem eu esqueci a dentista do meu filho, para honra e glória do senhor Jesus ela também esqueceu.

Que alívio! Na verdade se uma tivesse lembrado o trem teria rolado, mas o universo foi generoso e permitiu que ambas continuassem em suas vidas naturalmente, plenas, sem lembrar do compromisso.

Como diria uma certa Clarice, um brinde a reciprocidade!
  
Agora sem brincadeira, ou brincando menos...eu fico pensando, em como traçamos projetos, compromissos, planos e como nos apegamos demasiadamente a eles, de maneira que quando algo não se desenvolve como "prevíamos" nos frustramos, ficamos atrapalhados e perdidos.

Uma dificuldade imensa em receber e lidar com a surpresa, novidade, mudança de rumo que torna o evento muito pior do que de fato é, e muitas vezes nos distancia da capacidade de perceber que talvez a mudança tenha sido o certo ou o melhor para aquela situação ou circunstancia.

 Eu não sou contra planos e projetos, pelo contrário.

 Não raro eu pergunto em uma conversa: E qual é o plano?
  
Acho mesmo muito necessário e inteligente termos planos e rumos, o mestre gato da Alice já nos ensinou, pra quem não sabe onde ir qualquer caminho serve.

 Mas eu acho que tão importante quanto fazer e perseguir planos é a capacidade de seguir o fluxo, e se permitir adequar ou adaptar as circunstâncias que aparecem. Mesmo que as vezes, inicialmente, elas mais pareçam obstáculos dificultadores, elas certamente tornarão o trajeto ou projeto muito mais rico mediante a complexidade, e o resultado contará com o abrilhantado fornecido senão no fato ou produto em si, em você com certeza.
  
Nesse sentido, eu me prendo em tentar entender por quê tanta dificuldade em seguir o tal fluxo.

As vezes me parece que seria o mais natural e inteligente a se fazer.
  
A vida se estabelece em fluxos, o fluxo que a inicia, o fluxo que a mantem e que a leva a termo.

Os fluxos da natureza, dos rios, das águas, tudo funcionando tão equilibrado e harmoniosamente.
  
Não em tons médios/pastéis (nada contra heim), mas pintado de cores fortes mesmo com compensadores reais e legítimos. Como o tal movimento pendular que o Lowen tão bem apontou e descreveu e que depois foi enriquecido pelos fluxos do Boadella, combinação brilhante!
  
Enfim, diante disso a dificuldade me parece muito mais filha da expectativa criada com o desenvolvimento dele em si.
  
Aos estabelecermos um plano, nos recheamos de expectativa para que possamos nos sustentar e sentir seguros diante do caminho em que esse será executado.

 É o tal projeto do Sartre (de novo nada contra), mas a questão é que se segurar em expectativa é muito pouco. É muito vago. Impalpável.
  
E aliás ele falava do projeto, não da prisão que a expectativa pode gerar, nem tampouco seus efeitos.

 Essa pseudo segurança equivale a uma prateleira muito pequena em que as experiências e aprendizados serão acomodados, mas sem a menor flexibilidade para algo que não tenha sido "planejado" ou "previsto".
  
Sem essa flexibilidade de acomodação, a possibilidade mais direta é deixar passar a tal experiência, lição ou aprendizado. Um ignorar proposital que honestamente não sei exatamente se é possível.

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Conceituar faz bem nesse caso:


 (seguem definições mais relevantes ao tema)


Plano

 5.projeto, esboço, desenho (de uma construção, um jardim, uma obra qualquer).
"p. do edifício"

6.substantivo masculinofig. projeto ou programa elaborado que se destina a uma determinada finalidade.
"p. de filmagem"

7.substantivo masculinoconjunto de medidas, de ordem política, social, econômica etc., que visam a determinado objetivo.
"p. anual de investimento"

8.substantivo masculinofig. projeto ou intenção de lazer, de distração.
"tinha p. excitantes para a noite"

Previsto:

1.predito por meios sobrenaturais ou parapsicológicos; antevisto, profetizado, vaticinado.
"muitos acontecimentos p. não ocorreram"

2.deduzido com antecipação; esperado.
"a evolução dos acontecimentos era p."

3.calculado ou conjecturado com antecedência.
"os gastos p. ficaram aquém da realidade"

4.conhecido, mencionado, classificado de antemão.
"crime p. em lei"

Esse não me parece uma faculdade humana. A bem da verdade eu acho que ou é humano, ou é exato.

Expectativa:

1. situação de quem espera a ocorrência de algo, ou sua probabilidade de ocorrência, em determinado momento.

E já que a definição acima citou vamos a ultima, mas não menos importante.

Probabilidade:
  
1.perspectiva favorável de que algo venha a ocorrer; possibilidade, chance.
"há pouca p. de chuva"

2.grau de segurança com que se pode esperar a realização de um evento, determinado pela frequência relativa dos eventos do mesmo tipo numa série de tentativas.

3.est número provável correspondente a (alguma coisa), calculado estatisticamente.

4.mat número positivo entre zero e um, associado a um evento aleatório, que se mede pela frequência relativa da sua ocorrência numa longa sucessão de eventos.
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De posse dessas informações, fica mais didático pensarmos que precisamos diferenciar plano, previsão, expectativa e probabilidade, separar suas funções e aplicações.

É senso e hábito comum no ocidente que eles se apresentem e caminhem juntos, e faz sentido em transações comerciais, empresariais ou politicas, e olha que mesmo nesses casos, os flexíveis estão batendo um bolão.


 Mas na vida real e pessoal é muito desastroso. 

 Eu tenho visto pessoas quase acabando com suas vidas por dificuldade em adequar e acolher         mudanças. Recebendo coisas lindas do universo sem conseguir lidar porque não correspondem ou se encaixam na prateleira sistemática lá de cima.

 É muito sofrimento e energia gasto com sentimentos, situações e circunstâncias que se bem acolhidos e trabalhados mudarão para melhor o desfecho final.

Ignorar não é uma opção, o olhar e consciência humanas são os selecionadores dos eventos que farão diferença e terão importância na nossa vida.


Do momento que você viu e sentiu, dificilmente será o mesmo.
  
Aí você pode seguir o fluxo, mesmo lembrando do seu plano. E quem sabe assim, rever ou estabelecer um novo plano.

Ou pode se desesperar e gastar o triplo da energia e sanidade necessária para isso. Para lá no final, muito esgotado, pensar que precisa de um novo plano.


Não quero generalizar, mas isso tá acontecendo o tempo todo, com todas as pessoas, em todos os lugares do mundo.

Já aconteceu comigo, já aconteceu com você e vai acontecer de novo. Com nós dois.

Isso porque a vida é muito mais do que isso. Ela transborda, ela não cabe nos nossos roteiros e nos desafia nisso a todo momento.

Perdi as contas de quantos planos fiz a toa. Também perdi a conta de todos que deram certo.

E estou de novo cheia deles, porque me faz bem e organiza ter rumo.

Mas de tudo, o que mais fiz foi tentar encontrar graça no caminho, mesmo quando ele não me era confortável.


Mesmo as estradas ruins podem nos levar a bons lugares, porque o que importa é nossa ferramenta de caminhar, nossa caminhada em si, as pessoas que encontramos e os lugares que queremos ir.

Por ultimo, também é verdade que vi e vejo pessoas fazendo o contrário. 

Seguindo o fluxo tão lindamente e de maneira tão entregue e plena que faz parecer mágica.

Transforma a vida numa belíssima aventura com recompensas escondidas ao longo de todo o caminho. 

E quanto maior parecer o obstáculo ou evento, maior é a recompensa colada atrás dele.

Por último ter fé é um bom recurso para caminhar, ela não costuma falhar né...

A fé no Universo, na Natureza, em Deus, em si mesmo e nos processos nos fortalece e conduz.

Sustenta nossos passos nos dias de vacilo e faz com que possamos ter um olhar mais amoroso e calmo para os ajustes do caminho.

Não indolor mas sem dúvida muito recompensador.

Que nossa oração possa ser alcançar o entendimento do rio, e nos permitir enriquecer com o percurso em busca do nosso mar.
  
Que essa seja também nossa prática diária.

E que assim seja!


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