A vida é neve derretendo!

Comecei esse texto dia 08/12, no dia seguinte a neve em College Station, mas só olhei ele de novo e terminei hoje.

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Eu quis muito conseguir um tempo hoje para escrever. Queria muito que esse texto saísse ainda sob meu encantamento e alegria de ter visto a neve.

Pode parecer uma grande bobagem, mas foi realmente muito especial.

Para os que convivem comigo não é novidade o quanto tenho me ligado a natureza nesse processo de adaptação.

O lugar onde moro favoreceu isso, muito verde, animais e eu fui ficando cada vez mais próxima.

A adaptação me convidou para alguns mergulhos e junto com eles fui explorando meu feminino. Reli mulheres que correm com os lobos, a ciranda das mulheres sábias, e fui assim aos poucos aprendendo a fazer daqui a minha casa. Me integrando a essa natureza e me sentindo pertencente e parte dela, o que hoje creio que me acompanhará em qualquer lugar do mundo que esteja.

Desde então venho observando muito a natureza, seus ciclos e integrando estes aos meus ciclos pessoais.

Nunca tive dúvidas da intima relação da natureza com o feminino, mas nesses últimos tempos experimentei mais de perto e realmente internalizei rituais que me confortaram, integraram e acalmaram muitas vezes.

Observei muito os ciclos dessa natureza, como aqui temos as estações bem marcadas fui vivendo essas transformações; ontem uma amiga disse que ficou surpresa ao saber que justamente no frio eu estava me adaptando melhor. Não foi o frio, foi o passar do tempo.

Foi uma decisão acertada ter chegado no verão e assim ir observando as mudanças climáticas. Os dias gradualmente ficando mais curtos e os graus caindo aos poucos.

Junto a isso o tempo passou, eu fiz o meu caminho em relação ao que tinha que adaptar, sofri o que era pra sofrer e agora estou podendo desfrutar. E aí eis que neva!

Sim, neve no Texas. Ela aconteceu em 1960, 1989, 2004 e 2017.

Um evento raro, um presente da natureza. Ela foi generosa uma vez que já tinha pegado pesado com o furacão pouco tempo atrás e junto com a neve veio mais uma grande lição.

Não que eu não soubesse disso antes, mas acredito realmente que uma teoria só pode ser aprendida plenamente quando posta em prática. Claro que isso não se aplica a tudo, mas onde for aplicável dá certo.

Bom, primeiro a tal neve produziu em todos nós uma alegria ingênua e genuína, bem infantil, um prazer em si bastante peculiar. Essa alegria nos invadiu e quando vimos já estávamos a quase 3 horas no frio, brincando, fotografando e experimentando. O tempo parou e o encanto tomou conta de nós.

A possibilidade de entrar e a casa estar quente torna a experiência mais surreal ainda, e pra acreditar e contemplar dormi com a persiana aberta, era muito lindo tudo que estava lá fora.

Mas a lição ainda veio depois;

De manhã, quando acordamos, estava tudo branco. Telhado, arvores, carros, todo o verde do meu quintal estava branco, parecia que "alguém" tinha derrubado leite ou chantilly em tudo. Uma beleza inigualável.

Marido tinha trabalho, o filho aula, batemos fotos, caminhamos um pouco na neve mais grossa e fui deixar cada um no seu afazer.

Na volta sozinha na pista fui olhando, contemplando e refletindo.

Em breve tudo começaria a derreter, logo logo a paisagem estaria normal, e quiça mais quase 20 anos pra acontecer aqui novamente.

Decidi que precisávamos aproveitar.

Lembrei daquela tal amiga que citei no primeiro texto, em outro depois e no último (tá ficando recorrente heim baby - jajá ela exige créditos) ela sempre diz que não podemos economizar vida. E ela muitas vezes me ensinou isso, em momentos em que eu era protocolar, rígida, ética, enfim posso usar palavras lindas, e posso dizer também, quando eu era "cagona".

Era uma prova em que isso seria testado.

É um bom paralelo, a vida é literalmente neve derretendo. Cada escolha que fazemos nos leva a perdas e ganhos. Dessa vez ganhei a neve, não quero e não posso pensar no calor que perco nesse momento para te-la. Me pareceu então sensato desfrutar dela (e da vida) enquanto pudesse.

Liguei para uma amiga daqui e ela concordou.

Sim, só uma mãe brasileira busca o filho na aula, para leva-lo ao park para brincar na neve, mas foi o que fiz. Ainda peguei o amiguinho em outra escola. Eles amaram, brincaram muito de tudo, jogar bola, fazer boneco, escorregar, deitar e rolar. Tudo tudo.

Eu sei e pensei também que nossas atitudes são exemplos para os nossos pequenos, mas honestamente, quero que ele possa saber identificar quando um momento for raro e especial o suficiente para que ele dê um tempo no que for que esteja fazendo para viver.

Ele nunca tinha faltado da aula, entendeu a lição conjunta de quando é hora da justa exceção.

Quero que ele saiba identificar e desfrutar. Viver de verdade.

Sentir o cheiro, provar o sabor, olhar nos olhos e tocar a vida em sua abundancia e exuberância.

Essa foi a minha raridade da vez, mas já vivi circunstancias assim no meu cotidiano muitas vezes, e o engraçado é que sempre soube identificar mas nem sempre aceitava o convite para desfrute.

Existem muitos desses convites a viver por aí disfarçados de acasos.

Aquele dia que você sai mais cedo, e o tio da garapa ainda está lá.

Ou que você está de folga e o sol tá lindo.

Quando sua mãe faz uma comida gostosa e você pode ir comer.

Quando a cerveja está muito gelada apesar de você estar de dieta.

Quando você estava brava com ciumes do namorado ou marido, mas ele sai do banho cheiroso e deita ao seu lado, na sua cama.

Quando o filho chama pra brincar.

Quando o cachorro coloca a bola no seu pé.

O por do sol. A ciclovia. Cheiro de pão. Cheiro de pernil assado. Gargalhada de amiga.

Tropeção de gente desconhecida que convida a rir (Já quase fiz xixi na calça mil vezes com essa).

Enfim, não renuncie a um convite. Não negligencie um pedido da vida.

É negar a você e ao mesmo tempo a todos os outros, porque melhor com você, melhor com os outros.

O encantamento se transformou em alegria, que se transformou em gratidão.

Uma grande mestra me ensinou que não podemos mudar o mundo (embora ela mude muitos mundos, o tempo todo) e que muitas vezes sentimos culpa pelos prazeres e bençãos de nossa vida (que muitas vezes lutamos arduamente para conseguir). Ela me ensinou o "ofereço a todos os seres".

Nunca foi sobre a neve, falávamos de viagens, mergulhos, aquela bebida especial, aquela comida espetacular, uma paisagem, a natureza e enfim, sempre que o encantamento, prazer e alegria me tomam pela mão e me convidam a bailar com a vida, eu ofereço a todos os seres.

Nossa energia de luz pode ser multiplicada principalmente se espalhada.

Eu sei bem que na vida nem tudo são flores. Como sei.

Mas quando é, me esforço para desfrutar. Porque ela é cíclica, a dor também chega.

Me alimento desses bons momentos, para conseguir ter combustível nos ruins. É uma conta e postura inteligente.

E sabendo que a vida é neve derretendo, passa, sempre passa. O bom e ruim.

Sendo assim, desejo que ninguém se perca nos extremos, que suportem quando assim for e aproveitem quando assim for também.

Por hoje, e lá pelo dia 8/12 foi assim.

Andiamo.














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