De criança para criança
Viver tem me tomado muito tempo, é o esperado pra todos né, a não ser que você terceirize parte de suas funções, sejam elas de mãe, esposa, profissional, amiga, irmã, filha e etc.
Eu particularmente sou apaixonada por todas essas, e gasto um tempo bom inclusive, com a ginástica de dar conta disso tudo e não ser menos em nada. Ossos da auto exigência. Sinto muito se você também compartilha desse sentimento.
Ontem ainda, eu disse ao marido que quero fazer um livro de receitas. Toda vez que quero uma é um rolo de pegar o celular pra ver. Eu brinquei com ele, dizendo, cadê aquele tempo que eu teria aqui que eu gastaria estudando, aproveitando as crias, escrevendo (vejam a escassez), lendo, cozinhando e me deliciando disso tudo.
Bom, tá um pouco na caminhada, um pouco no inglês, um pouco nos aúdios de whats, que eu detesto mas eu mesma mando quando preciso. Está no chá, no deitar do stool, na soneca, na terapia, na correria do leva e busca, no banho comprido, na série, no livro, na novela (que depois dessa nenhuma mais me pega).
Está por aí em tudo isso, destilado em minutos, segundos...o tempo inteiro em cada fragmento dele.
E se é a natureza do que é composto e presença que faz o preenchimento de tempo e consequente sensação de aproveitamento, então estou no lucro demais. Porque quando vejo é meio dia, seis da tarde, meia noite e por aí vai.
Vivendo inteira que eu estava no passar desse tempo não vejo o relógio mas me alimento do produto disso.
Parte dele é gasto com subjetividades. Não dá pra medir o bem estar que uma conversa, caminhada, chá ou chamego causam. Nem pra mim nem pro outro.
A outra parte é concreta, medida pela engorda geral (não que eu me regozije com isso) com as comidas feitas de ingredientes orgânicos mas também de amor e tempo, com as notas lindas do pequeno, com a segurança do inglês em alguns momentos, com a desenvoltura e beleza da mais velha...
E se anteriormente esse tempo não fosse gasto com tais coisas, não teria essas pequenas (grandes) colheitas.
É óbvio né, mas é o óbvio que escapa das nossas mãos todo santo dia.
Baumann disse que a modernidade é liquida, e diariamente perdemos o precioso elixir tentando segurar em mãos vazadas.
Não é culpa do humano, é um composto de natureza do homem, do próprio tempo e das coisas em si.
Um explosão do não controle, que se a gente pára pra pensar, quer cronometrar cada segundo, cada minuto para poder controlar e assim "aproveitar/controlar" o incontrolável mas não o "inaproveitável"devido a isso.
Parece que vejo o chapeleiro dizendo (embora ele não tenha dito tá, não claramente), que se você olhar pro relógio pra medir o aproveitamento vai perder parte dele por isso.
Confundimos controle com aproveitamento. Não são correlatos, são distintos.
Mas plantaram isso em nós e seguimos plantando em nossas crianças. Quer ver:
Corre, que só temos mais 5 minutos.
Olha pra esse relógio que a hora tá passando e você tá aí.
O dia acabou e você não fez nada.
Vou te comprar uma agenda para você não perder mais tempo.
Como assim nada? Como assim relatar e controlar pra aproveitar?
Não vou discutir cada frase e sua implicação, mas uma dica sobre o vamos rápido aproveite que só tem mais cinco minutos. Eu gosto de dizer, vai lá aproveita, quando estiver chegando a hora te aviso para você se despedir.
Claro que aproveitando vai passar rápido, mas com muita cor e sabor, que eu não desejo que seja roubado pela aflição do término.
Cabe ao adulto essa organização do tempo, e segurar a aflição do término.
Gradualmente vamos dando essa noção as crianças, mas não precisa ser radical nem cruel. Eles terão tempo para aprender isso. Literalmente.
Enfim, os meus pacientes crianças me ensinaram muito disso.
Alguns tinham necessidade de saber quanto tempo tínhamos, queriam marcar e serem avisados sobre a eminência do término deste. Outros desligados disso só usufruíam e no final sempre tinha um já?! ou hoje demorou!
Tem teoria que defenda ambos funcionamentos, e em cada caso era um caso. Mas acontecia algo interessante. Mesmo o que media, perdia a noção deste quando estava preenchido de prazer ou inteireza.
É como se quando algo fosse de verdade, seja ele bom ou ruim, o tempo parasse mas depois voltava e você se soubesse disso, teria aproveitado mais o intervalo.
A intensidade do momento também nos leva a um viver paralelo, que de tão lindo e tão intenso, não pode caber ali.
Certa vez, estava terminando de arrumar a sala ao término de uma sessão, e quando fui abrir a porta um pequeno falou, Espera, volta aqui, deixa eu te arrumar pra você ficar adulta de novo.
Naqueles momentos antes, eu tinha sido criança pra ele, talvez isso fosse importante para que ele tivesse identificação e conseguisse entregar detalhes tão preciosos da sua vida, algumas coisas dolorosas que precisavam de olhar e cuidado.
O que ele não sabia, era que de fato, eu me encontrava com minha criança ali através dele, cuidava dela, a curava e fazia ela convencer meu adulto que ao cuidar de mais uma criança eu assim cuidava de todo o universo em si, e realizava assim "nosso" sonho infantil, de mudar o mundo.
Eu sigo amando as crianças, sigo tentando alimentar e cuidar da minha. E sigo tentando ver em cada adulto a criança que ele foi. Uma querida amiga que não é da área disse esses dias fazer isso. Sempre foi minha tática, mas tenho alguma dificuldade quando tem alguma criança concreta sofrendo em virtude desse adulto que tento ver como criança.
A vida não volta pra trás, se erraram com nossa criança o jeito e pegar ela no colo, consolar e seguir fazendo para as outras coisas melhores do que fizeram conosco.
E nesse dia das crianças, não posso desejar nada mais ou menos que isso. Que sendo adulto, você permita que sua criança apareça e que assim ela possa interagir com outras.
Que você cuide dela, e plante nos pequenos de fato a continuidade disso.
Que ao cuidar de cada criança, com uma palavra, um afago ou um doce você possa plantar essa onda contínua de fantasia, entrega e amor.
Eu vi crianças muito machucadas nos abrigos que estive. Com a dor nos olhos. E era o mesmo que ver um anjo com a asa quebrada, ou as feridas de Jesus. Mas essas mesmas crianças, marcadas por histórias difíceis, riam alto e brincavam leves, quando podiam se entregar a uma relação.
Iam do pranto ao paraíso em segundos. Que looping! Wow! Haja grounding.
Não tem pior maneira de destruir o mundo, como ferir uma criança. Como não tem melhor maneira de recupera-lo e cuida-lo, senão investir e cuidar de uma criança.
Cuidar de verdade, com brilho nos olhos, abraço, aconchego e brincadeira. Para além de roupas, brinquedos e viagens.
Cuidar com bolo, com banho de chuva e poça da água.
Na dúvida de como fazer, escolha o simples e o que favoreça a interação.
Vai conquistar até o mais mimado e sofisticado, o mais endurecido e amargo, porque lá dentro, mesmo muito revestido de máscaras e capas protetoras mora uma criança que um dia ficou em dúvida sobre como o céu é azul, como o catavento voa, como a chuva cai ou como um doce é doce.
Que esse dia sirva também para você pensar em fazer algo pela criança do outro, de longe, que não tem muito. Esteja ela em uma comunidade, no abrigo, na casa do seu vizinho.
Seja um conhecido, primo, sobrinho ou desconhecido.
Use você recursos de ser um amigo, tio, voluntário ou ainda algo como apadrinhamento afetivo, família acolhedora.
Dê um olhar amigo, uma palavra ou uma brincadeira.
Esse era meu jargão quando eu atuava nessa área, se você cuidar de uma criança, vai cuidar do mundo todo. O plano é que ela continue sua ação quando você não estiver mais aqui.
Se você não se preocupa diretamente com ela, faça pela sociedade. Amanhã é um a menos que estará perdido. Um ferido a menos, que tende a cuidar mais e a machucar menos por tabela.
Ah, e só um detalhe.
Essa criança aí, estará no mesmo mundo que os seus tá. Então que possa ser um bom encontro, porque no fundo, todos são nossos.
Por último, coloquei no link abaixo um vídeo da música Saiba, interpretada pela Adriana Calcanhoto. A música fala que todos foram crianças, cita nome de famosos e no vídeo aparece as fotos destes.
Eu queria propor um exercício, escute ela, vendo as imagens e imaginando essas pessoas crianças.
O mais novo que você conseguir.
Aquela fase delicia com 2 ou 3 anos. Que criança ele deve ter sido, como era?!
Depois se lembre da criança que você foi. Dos seus sonhos e desejos. Dos seus medos e preocupações.
Pegue você no colo, se acolha.
Diga a si mesmo que se não está, vai ficar tudo bem.
E por último, experimente compartilhar com suas crianças, sobrinhos, filho de amigos, enfim...com alguma criança que te rodeie alguma coisa da sua infância, algum medo, alguma coisa "errada", alguma coisa engraçada. Uma história. Um "causo".
Experimente.
Todo mundo foi criança
Tenho pra mim que esse compartilhamento é como uma senha secreta de acesso aos pequenos, sempre tive muito sucesso com isso. Até hoje os meus gostam de escutar minhas histórias, muitas vezes repetidas para eles. Boa sorte nisso!
Só se ensina uma criança amar amando-a, só a ensinamos a cuidar cuidando-a e precisamos de fato crescer para que possamos também ajuda-los a crescer.
Um feliz dia das crianças para vocês!
Tô tentando retomar um encontro aqui com a minha, quem sabe não fico magra como ela era.
Senão ficar magra imediatamente, chuto o balde e faço um bolo de chocolate mais tarde de presente.
Até breve,

Dedé e Vini que lindos, perguntei para o Vini qual vai ser o nome do Seu irmãozinho ai ele disse Dedé mamãe.....rs
ResponderExcluir