Nossa cruz e nossa benção.

Mil anos se passaram e novamente eu tenho zilhões de coisas sobre as quais gostaria de escrever.

Eu sei tá ficando repetitivo, mas quanto menos consigo escrever mais vai sendo acumulado e minha sensação de estar perdida entre todo esse conteúdo aumenta junto. É inversamente proporcional.

Essa semana não faltou só tempo. Faltou inspiração.

Eu normalmente falo do que estou imersa, e essa semana era em um desanimo e tristeza que eu não queria compartilhar com ninguém. Nesses momentos me recolho, os mais chegados sabem disso e por ciência e inteligencia normalmente guardam a distância de segurança.

Nada demais, que não tenha na vida de todo mundo, pode olhar ali no fundo do armário que você acha seus dias marrons, cinzas...enfim. Pode escolher seu tom.

Eu gosto do marrom porque...  "A tempestade que chega é da cor dos teus olhos...castanhos" lembrando que a manhã era tão cinza...

O movimento cíclico e necessário da vida, que eu já disse antes, se desejar leia aqui: Vamos falar de tristeza...digo de natureza.

Um pouquinho piorado pela adaptação às noventa mil coisas novas que requer ajuste quando se muda de posição, de país, de status profissional, conjugal e etc.

Continuando...
Eu tenho recursos para falar do que não sinto mas não gosto disso. Não me sinto confortável em escrever a partir de um olhar terceiro. Minhas palavras carregam meu sentimento, então hoje estou aqui com eles e vou passar por esse caminho da escrita, que me é caro.

Uma força sutil no meu dia a dia.

Força sutil, uma querida orientadora usava bastante essa expressão. Demora pra gente entender, aceitar e internalizar. Mas que força linda há na sutileza.

Hoje acordei triste, mas inspirada. A tristeza tem a sua beleza e seu potencial. Mãe da reflexão e da poesia.

Ontem tive um dia interessante que acolheu e fez caber em suas 24 horas os mais distintos sentimentos possíveis e imaginários.

Não tem muita surpresa nisso, é a montanha russa da vida mas muitos loopings num dia só cansa. Literalmente.

Conheci e almocei com uma pessoa fantástica, uma mulher linda, delicada e inteligente. Que estava disponível e exuberante no auge das suas 40 semanas de gestação. Um doce. Me acolheu e acalmou em terras distantes, foi calma e a benção da identificação fez nosso enlace, antes até do encontro, quando marcamos. Isso porque éramos só mães tentando juntar nossos brasileirinhos e ajuda-los a fazer rede. De lambuja vamos fazendo a nossa.

Continuando...
Depois peguei o caçula na escola, veio com um boletim espetacular. Lindo de ver. Chorei de emoção e gratidão, porque Deus (e quem passou e passa por isso) sabem, quão punk é chegar em outro lugar, falando pouco, sem pertencimento e retomar. Me identifico muito com ele. Saímos ambos de lugares de destaque no Brasil, pra uma posição que a principio soa como deficitária.

Ele literalmente, do lugar de excelente aluno, para a mesa dos que precisam de ajuda.

E quando veio 97, 94, 89 e 100 de notas, eu pude falar pra ele que o potencial dele tá todo aqui com ele. Que assim que ele estiver mais fluente vai poder demonstrar tudo isso. Que ele não é burro nem incapaz como as vezes pode se sentir. Que tudo o que ele é, ele continua sendo, que precisa se lembrar. Que é um menino interessante, tem e terá ainda mais histórias pra contar. Viajado. Bilíngue. Resiliente.

Enfim, abri meu relicário de preciosidades sobre ele e as palavras, sementes férteis, foram regadas pela segurança e elevação de auto estima que as notas proporcionaram.

É só uma nota. É só uma coisa. E são muitas coisas ao mesmo tempo.

E quando falamos, o ouvido mais próximo é o nosso né. Vai que cola.

Continuando...
Essa alegria e momento lacearam minhas defesas e mais tarde quando recebi uma notícia muito triste do Brasil, já estava num ar de emoção, escorreguei numa poça de lágrimas e tô tentando me secar até agora.

Os dois cachorros do meu cunhado foram envenenados. Dois labradores. Um era filho da minha cachorra. A essa altura eu penso o que é puro e nos seus possíveis antônimos.

Contaminado. Maculado. Sujo. Desprezível. Sórdido. Pérfido. Traiçoeiro. Indigno. Pecaminoso. Asqueroso.

Existem muitos outros https://www.antonimos.com.br/puro/ mas creio que esses são suficientes, pra descrever o oposto de puro.

Penso na pureza desses animais. Na alegria que promovem na nossa vida. Na inocência. Na excitação ao receber o bolo de carne envenenado.

E penso que esses antônimos todos são pouco para descrever a alma do praticante de um ato desses.

Estamos tentando não nos contaminar da revolta e de ódio.

Estamos tentando. Estamos tentando. Estamos tentando.

Sinto muito. Me perdoe. Te amo. Sou grata.

Haja hoponopono.

Mas da tristeza não dá pra fugir.

Sinto muita compaixão pelo meu cunhado e irmã. Dois apaixonados por animais.

Ele me ajudou a enterrar a minha, não quis olhar pra ela morta mas ajudou a enterrar. O clima de tristeza naquela noite quando nos reunimos na casa deles. Minha irmã tinha chorado o dia todo.
Não posso imaginar a tristeza desse momento de agora.

Sigo rezando.

Pra que eles possam chorar o que tiverem que chorar e que isso possa passar.

Que possam continuar apesar desse pesar em dose dupla.

São só dois cachorros. Não não são.

Era um humano também. Era.

Eu penso que quando se volta para fazer mal a um ser indefeso carregado de tanta doçura e alegria, algo de um valor essencial está perdido.

O manfeitor já tem sua cruz. Ser quem é.

Além disso, eu acredito na lei da vida e do retorno.

Daqui um tempo isso vai passar, e eles estarão ocupados em se divertir com outros focinhos, outras bagunças, criando novas histórias que lembrarão esses animais que agora se foram assim.

Nós já conversamos várias vezes sobre energéticamente nossos animais amados voltarem pra nós.

Esses focinhos não serão esquecidos e um dia certamente serão reconhecidos.

Podem se trocar os nomes. Ou não.

Marley e Thor eram bons nomes para os seres que foram e que serão.

Nada como um dia após o outro, com uma noite no meio. O tempo vai acalmar essa mágoa.

Estamos de luto por esses dias. Por eles. E por essa humanidade que é tão desumana.

"..Mas ainda temos chance, o sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer." 

Também estou em oração, pelos corações machucados da minha família.

Pelo meu cunhado.

Mas principalmente pelo malfeitor, porque ele certamente precisa muito muito muito mais.

Sinto muito pelo pesar e peso desse texto.

É complexo o conjunto de sensações que constrói os sentimentos.

É complexo o processo de denominação de uma emoção.

As dessa natureza, que eles principalmente e quem está ao redor estão vivendo, ainda mais.

Mas é preciso pensar e sentir sobre também. Nos fortalece emocionalmente e nos dá repertório de vida.

Nesse sentido, escrever sobre é um elaborar. É um jeito de limpar o coração da revolta que nos rodeia pra tentar lembrar das alegrias, da pureza e do lado leve da vida.

Sendo assim, desejo que o peso e pesar possa ficar nessas palavras, e que após ler, cada um possa aproveitar a pureza que tem envolta e a benção de ter motivos para continuar a ter fé e esperança na humanidade.

Especialmente aos meus amados.

A nossa deu uma tropeçada, mas logo logo cicatriza e vai continuar. Com certeza.

Porque esses somos nós. Também é nossa cruz. Mas é mais nossa benção.

E já que hoje eu estava com as letras do Renato me rondando, vou fechar com mais uma, mais uma vez.

"Mas é claro que o sol, vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei...
   
...espera que o sol já vem."



Continuando...
Até breve!


PS. Já tem texto com título em homenagem ao continuar. Então por isso esse ganhou outro nome. Mas sigo e seguimos continuando.








Comentários

  1. Que lindo meu amor, estamos pensando até agora o que fizemos pra receber tamanha crueldade com os nossos bichinhos, como vc disse nada como um dia após o outro. Te amo. Bjos 😢

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