Retomando...

Mais um texto de 50 anos depois...

Como é estranha essa sensação. Já senti ela em outras vezes.

Quando fazia a formação de psicoterapeuta corporal, a cada workshop que vivia, ao retornar a realidade parecia que voltava de um planeta distante.

Foi essa a sensação que tive ao retornar a College, cheguei do Brasil segunda.

O delicioso cheiro de casa, o abraço dos meus amados, meu pão e frutas favoritas, tudo foi ótimo, mas eu fiquei um pouco passada.

A intensidade dos momentos vividos pediam um pouco mais de tempo antes que tudo fosse armazenado junto com as outras experiências vividas. Era necessário elaborar.

Comparo elaborar a um mecanismo operacional, mas no caso, do nosso sistema psíquico ou mental.

É como dar um tempo para digestão.

Sim, elaborar é digerir.

Dar um tempo para o sistema acomodar certa experiência. Algo como permitir que ela seja processada, com que se retire seu aprendizado e tenha todos os seus itens separados e armazenados adequadamente.

As sensações vão pra um lugar (cheiros, toques, arrepios), as percepções para outro (o que sentimos a partir dessas sensações), as interpretações desse conteúdo ainda pra outro, o aprendizado pra outro, as emoções ainda em outro, onde são linkadas a outras emoções da vividas e incorporadas na nossa rede; e juntamente com esse processo deve gerar um resíduo inconsciente que não tem muito nome e é lançado na nossa caixa preta.

Isso tudo tem um tanto de base teórica e outro tanto das metáforas que uso pra compreender e explicar esses fenômenos.

Enfim...sempre que eu penso no Brasil como esse lugar distante, me lembro das pessoas.

Qualquer lugar do mundo, seja uma cidade, país ou instituição, qualquer um que seja, sempre será representado por pessoas.

As pessoas que encontramos em nosso caminho são representantes do mundo que estamos e de todo aquele contexto. (E podemos falar da nossa responsabilidade nisso em outro momento).

O ser humano é um animal relacional. Se desenvolve a partir das relações.

É o filhote mais frágil do reino animal, precisa de no mínimo um ano de cuidados diretos para sobreviver, e esse dado diz muito sobre o quão dependente somos de todo esse contato e afeto.

Necessitamos de afetar e sermos afetados pelo mundo.

Necessitamos da dependência, que na fase correta é alicerce básico para a futura independência.

Tive muitos encontros no Brasil, revi pessoas queridas e estive com meus familiares a maior parte do tempo. Era pra isso que estava lá, e foi isso que eu fiz.

Aproveitei profundamente os dois membros mais novos da nossa família e também o membro mais velho.

Há uma certa aliança entre a velhice e a infância que não se revela todo o tempo, mas que produz sensações e sentimentos próprios de sua atuação.

É fantástico.

Eu lamentei e lamento muito quem não pode viver isso, e não pela distância.

A distância física muitas vezes é um detalhe, que hoje a tecnologia dribla.

Mas pensei muito nas pessoas que podendo usufruir dos seus não o fazem.

Podendo passar pra tomar um café com a vó não vão.

Podendo brincar com os sobrinhos dizem não ter tempo;

Podendo ouvir histórias de família repetidas ficam de fone... a cada novo contar tem uma vírgula nova, um ponto perdido.

De arrependimento eu não morro. E de desgosto não mato.

Por mim, para mim...por eles e para eles.

A vida é rara.

Viver longe de casa reorganiza nossas relações, suaviza questões densas e maximiza as boas.

É bom que seja assim, a vida é sábia e mantem uma ordem natural das coisas que nos diz que é só deixar que se cumpra e no fim tudo dará certo.

Essa foi a primeira lição consolidada. Enjoy it. Literalmente.

E como aproveitei.

Agora a vida está voltando a rotina, e de fato adquirindo ritmo aqui. Na próxima semana as aulas começam para todos, os desafios e a correria trazem a sensação de acomodação.

Os cheiros, abraços e sensações ainda não foram totalmente armazenados e eu vou deixar que o sejam naturalmente.

Como uma chama que deixamos queimar até que apague.

Enquanto ela esta acesa estou ocupada com sua contemplação, aos poucos vou conseguindo escrever mais e melhor sobre tudo.

Ah, e sobre a digestão ou elaboração, uma dica. Dormir.

Dormir descansa nossa alma e permite que o sistema otimize o tal processo.

Escrever também, por isso estou aqui.

Sentar aqui no meu canto e fazer isso realmente me nutre.

Vou compartilhar meu olhar de agora.



E vou ficando por aqui...

um dia a menos, um dia a mais.

Até logo.





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