Furacão a parte

Recomeçar é bem mais difícil sempre.

Desde dieta, estudo até a vida em todo seu esplendor e obviamente por saber disso me dei essa semana de canja.

Cheguei com trocentas coisas pra fazer e uma vontade tremenda de pausar o mundo pra descansar.

Mas o mundo não pausa, as reuniões todas, as compras de materiais de escola, as confirmações de nacionalidade, o email pro banco, as novidades de projetos e o furacão me mantem alerta.

Fiquei pensando na frase de tudo estar certo como está, e de como nos adaptamos às situações e circunstancias.

Como brasileira que sou acabo achando essa história de furacão muito doida. Parece coisa de filme ou matrix.

Até um dois meses atrás esse tema estava em último na minha lista de prioridades. E hoje eu recebo alertas e preciso tomar atitudes sobre. Ok Vamos lá!

E pensa num lugar organizado. Alertas desde ontem falando sobre a intensidade, localização dando orientação de lugares para evacuação, onde ir e diretrizes de comportamento como comprar água e comida. E todo mundo segue, quando o marido chegou pra comprar estava no final. Tinha gente comprando gerador e tudo.

Uma informação sobre os alertas. Os celulares tocam com os avisos ao mesmo tempo, com um peee peee peee peee alto, mesmo que esteja pra não tocar.

Isso é um trem terrível, apavorante.

Bom, eu já detesto alerta sonoro normalmente. É uma vida selecionar o toque do despertador porque preciso de algo gradual e que não me assuste, senão acordo com o coração disparado. Então pra mim isso é especialmente assustador.

Agora imagina isso numa empresa com dezenas ou centenas de pessoas. No shopping ou mercado. Gera um efeito imediato de desespero e uma reação em massa.

De certo isso é uma medida pensada para que as pessoas entrem em contato com a seriedade da coisa, mas falando sério, nem precisa, esse povo aqui super leva fé nos avisos, pode crer.

Se fosse no Brasil, acho que ia precisar vibrar e acender a luz, tipo aqueles trens de lanchonete de senha e eu fico imaginando as piadas.

Aliás isso é tão forte que minha frase acima é expressão de como isso está enraizado em nós.

Eu não acho isso de todo ruim, acho que faz parte do potencial que o Brasil e o brasileiro tem de superar tragédias e fazer do limão uma limonada; e se isso fosse direcionado para o bem, seria um sucesso absoluto.

O grande lamento é que esse potencial criativo em muitos momentos se perde em piadas que podem ser desrespeitosas.

É uma linha tênue que determina até que ponto esse humor pode chegar próximo da tragédia sem se tornar ofensivo ou desrespeitoso.

Sendo assim, pelo que vejo aqui eles mantem uma distancia de segurança e não o fazem.

Aqui simplesmente não rola NENHUM, nenhum meme de piada sobre o fato. Pelo jeito nem antes, durante, nem depois.

É tema sério, não há piada enquanto alguém corra risco de vida, de estar desabrigado ou de passar privação de água ou comida.

O que me faz pensar imediatamente na tragédia de Mariana.

Não é que aqui seja maravilhoso em todos os sentidos, mas em relação a isso eles são bastante preocupados e sérios. Do que é possível prever e organizar, está tudo devidamente previsto e organizado.

Ontem por exemplo, um pouco antes do alerta se tornar publico, homens da prefeitura apertaram a campainha pedindo autorização para cortar as arvores do pedaço atrás da casa que é uma área publica, afim de evitar que caia galhos sobre a casa ou fios, já que está iniciando a temporada de chuvas e tempestades.

Ano passado cheguei aqui um dia depois do furacão. Houston ainda estava um pouco alagada, muitas árvores caídas e destruição pelo caminho até College.

Na volta tudo praticamente normal. Se não soubesse do acontecido, não diria que houve algo nesse sentido.

Enfim, é um outro jeito de lidar com a situação, influenciado pelas questões culturais que envolvem tudo.

Nós brasileiros não sabemos lidar com furacões, não tivemos que aprender, nossas crises são por outros motivos, como por exemplo a dificuldade em mudar o pressuposto inicial de desonesto para honesto, ou ainda o medo de deixar a garagem aberta ou andar com Iphone na rua.

Tem gente que diz que o problema do Brasil é educação.

No meu transfer de volta pro aeroporto em Guarulhos o motorista estava questionando isso, dizendo que não precisa de educação pra saber algumas coisas, defendendo que as crianças possuem senso de certo e errado e queixando-se do oportunismo no transito que reproduz isso.

Eu concordo com ele em parte. Bem em parte. Acho sim que é uma questão de educação mas que está diretamente ligado a outro fator, a maturidade social. O Brasil é um país novo. Uma sociedade em desenvolvimento. Precisa de educação e tempo para emprego desta.

Além disso, não acho tão óbvio o senso de certo e errado, ele é construído na micro sociedade que esta criança está inserida, junto a sua família, escola e etc.

O Brasil é um país onde o povo é severamente mal tratado e lesado, gerando um efeito rebote de "roubar" previlégios e oportunidades.

É difícil determinar o que vem primeiro, o leso ou a reação, visto que claramente há comportamentos corruptos do menor ao maior escalão. Do funcionário que rouba lápis da empresa ao presidente envolvido em altos esquemas de roubo.

Vitor Hugo disse que existe uma certa cumplicidade vergonhosa entre um governo que faz o mal e um povo que o mantém ou consente, eu sempre penso que um é expressão do outro. E claro, existem as exceções que não são representadas relevantemente na democracia, são minorias.

Seguindo a mesma linha, existem pessoas que mantem o pressuposto da honestidade, que agem de maneira correta e ética e que precisam de uma inteligencia emocional tremenda para não se deixar abalar, endurecer ou esmorecer diante dos lesos diários, que fazem oposição as suas crenças e muitas vezes abalam.

Que Deus as ampare, e que energeticamente elas possam criar um campo que as proteja disso tudo, porque no contexto errado, essas características podem produzir pequenas tragédias pessoais e a perda ou diminuição da fé na humanidade, o que é extremamente triste já que essa humanidade é fatalmente nossa casa.

Mas existe esperança, Cortella disse recentemente, que o que se vive no Brasil não é o fim. É o começo da revolução que levará a algumas mudanças necessárias. Oxalá ele tenha razão.

Então, que cada um possa lidar com seu furacão diário. Seja ele concreto ou não. Fruto da natureza, da politica ou da tpm da mulher mais próxima.

Se as três coisas coincidirem a data, um bom psiquiatra pode ter a receita necessária.

Sobre o nosso furacão da vez, aqui está: Tempestade Harvey se transforma em furacão e atinge o Texas nesse fim de semana

E uma foto do trem, que na imagem fica até bonitinho.


Até logo.
See you soon.





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